quarta-feira, 15 de novembro de 2017

O regresso do que nunca partiu

   Nunca pensei voltar a escrever por aqui, pois se o fizesse não seria por bons motivos. Mas fizeram-me lembrar que este blog existia, que marcou e continua a marcar tantos corações, e decidi contar mais um episódio desta novela que é a minha vida.
   Para quem não sabe e quer saber, para quem sabe e quer voltar a saber e até para quem não quer saber...
   Tudo estava bem, tudo corria às mil maravilhas, era (e sou) feliz, estudava e divertia-me até que... o mundo voltou a cair.

 
   Após algumas semanas de constipação e de alguma febre no domingo dia 23 de Abril decidi ir à urgência de Santarém, por incrível que pareça e sei que é muito raro isto acontecer fui recebida por um médico espectacular que não desistiu de saber o que se passava. Temia que fosse febre da carraça, mas após revistarmos tudo vimos que não era. Fiz análises, enquanto esperava os resultados fazia tratamento para a febre, mas o meu sexto sentido dizia que algo não estava bem. Veio o resultado das análises. Tudo alterado. Algo não estava mesmo bem. Devido aos meus antecedentes o médico, para meu bem, decidiu contactar o IPO. No meu rosto só corriam lágrimas, estava à vista que tudo estava a voltar novamente por mais que a minha mãe dissesse que não. O tal médico, que ainda hoje estou para saber o nome, chamou-nos à parte, disse que o melhor era ir para o IPO, fazer exames para saber o que realmente se passava, mas que tinha que passar ali a noite e depois seguia para o IPO de ambulância. E tudo começou... Outra vez...



   Depois de uma noite mal dormida, num quarto isolado, na companhia de excelentes enfermeiros, segui a minha viagem até Lisboa na companhia da minha mãe. Dia 24 de Abril posso afirmar que foi um dos piores dias da minha vida. Após a entrada na urgência, fiz os respectivos exames e esperei o resultado. Não foi o que eu queria ouvir. A minha "antiga" médica sentou-se ao meu lado e confirmou o que mais temia "Tens leucemia", que palavras tão duras de ouvir. Como costumo dizer, a primeira vez custa ouvir mas a segunda custa muitas mais. Lágrimas corriam pelo rosto, pelo meu, pelo da minha mãe, pelo do meu pai e pela minha médica. O desespero foi tão grande que cheguei a pensar "Vou desta para melhor". Custou-me tanto ver os meus pais assim, só Deus sabe o que este coraçãozinho aguenta. Depois de muitas lágrimas derramadas, saímos por aquela porta com uma certeza, "ele" não ia acabar comigo, nós íamos enfrentá-lo. E assim foi, de imediato comecei a quimioterapia, o primeiro ciclo foi composto por 7 dias de quimioterapia, 24h sob 24h com pequenos efeitos secundários, só o corpo todo manchado. Decidi cortar logo o cabelo, sabia que ele ia cair e ia custar-me imenso vê-lo cair, apesar de me custar cortá-lo mas foi o melhor.


   A médica disse que assim que saísse da aplasia (quando os valores começam a subir) que poderia ir uns dias a casa, mas algo não estava a correr bem, os valores não subiam, algo de errado se passava. Fiz um exame à medula e os resultados não foram os esperados, entrei ali com 90% das células doentes e o primeiro ciclo de quimioterapia só acabou com 40%, ou seja, ainda tinha 50% das células doentes, ainda era muito para poder ir a casa, tinha que começar um novo ciclo de quimioterapia o mais rápido possível e como tal não podia ir passar uns dias a casa, apenas me deram um mimo de ir a casa almoçar. Depois dessa tarde comecei o pior ciclo de quimioterapia, tive bastantes efeitos secundários como todos sabem. Tive 4 dias sem conseguir abrir os olhos, logo de seguida tive uma infecção no intestino ao qual fui obrigada a deixar de comer e beber durante uma semana e para acabar a dose fiz um coágulo numa veia. Foi bastante agressivo, comecei a depender da ajuda da minha mãe, não conseguia fazer as coisas sozinha, mas parece que foi assim que fez efeito, o cabelinho começou a cair de vez e decidi rapá-lo.


   Depois de acabar esses efeitos todos fiz novamente esse exame à medula e como as coisas já estavam a ganhar caminho ao fim de dois meses vim para casa, FINALMENTE.
Home sweet home! Dia 19 de Junho, nada melhor que uma semana cheia de abraços e cheia de carinhos. Uma semana que pareceu uma hora mas que foi aproveitado até ao último minuto. E com boas notícias pelo meio ainda soube melhor. O resultado do exame à medula chegou, e não podia ser um resultado melhor, entrei em remissão, ou seja, já não havia vestígios da doença! Uma explosão de alegria que houve em mim, tudo estava no caminho certo! (Obrigada a quem estava comigo quando recebi o telefonema, foi o melhor abraço que podia receber.)
   Depois dessa semana voltei à realidade, mais um internamento, mas as coisas agora estavam mais calmas, iriam ser poucos dias. Fazia a quimio vinha a casa e depois voltava para controlo da aplasia. Esta quimio era mais leve, não tive qualquer tipo de efeito secundário. Chama-se a consolidação, ou seja, é uma prevenção para que não volte a haver vestígios da doença. É importante explicar que lá por ter entrado em remissão não quer dizer que não tenha que fazer o transplante, o principal objetivo era entrar em remissão pois para fazer o transplante de medula tenho que ir com menos de 5% da doença, o que foi conseguido porque não há vestígios de células cancerígenas.
   Fiz três quimios de consolidação, a primeira começou a 26 de Junho, a segunda (acho) a 17 de Julho, e a terceira a 13 de agosto. Sim, com muito esforço consegui vir à festa da Glória 😊
   Como as minhas veias já estão super cansadas e estragadas era obrigada a pôr um cateter externo que era colocado no pescoço (veia jugular) cada vez que ficava internada (como muitos viram ou como também se vê nas fotos) e como aqui a princesa é uma Maria Madalena chorava cada vez que isso tinha que acontecer, tivemos que optar por um cateter interno com anestesia geral (normalmente põe-se com anestesia local mas como já pus um e sei o que custa pedi para ser geral) ao qual me obrigou a passar uma noite na pediatria do IPO, felizmente correu tudo bem. Para quem não sabe e fazendo um breve resumo, cateter é um tubo debaixo da pele que está ligado à veia subclávia (meninas e meninos enfermeiros corrigem-me se estiver errada). É através desse cateter que faço todos os tratamentos necessários.
   Após a primeira sessão de consolidação surgiu a ideia de fazer uma sessão fotográfica assim mesmo, careca, sem cabelo, para dar a conhecer aqui que sou sem qualquer tipo de complexos. Nunca é demais agradecer à minha querida Cláudia e ao meu querido Duarte por conseguirem tornar esta sessão ainda mais especial do que tinha imaginado.










  




   É difícil, muito difícil, ninguém tem a noção, mesmo quem já passou por isto tem uma maneira diferente da minha de reagir, de certeza. Aquilo que vocês vêm é aquilo que sou quase sempre, a menina alegre e feliz, como se não se passasse nada, a menina que se sente bem, que vê isto como um obstáculo, que só pensa que um dia vai tudo passar, a menina com o sorriso que vocês vêm na rua, mas também que, por vezes, se farta, que chora e que tem vontade de desistir de tudo, aquela menina que nunca fala do que está mal mas sempre do que está bem. Não me perguntem de onde vem esta força porque por vezes também deixo de a ter, também tenho o direito de fraquejar (por mais que vocês não queiram), também tenho o direito de chorar e pensar que nada disto devia acontecer, que eu, principalmente eu, não mereço isto.
   Não peço que chorem a ler isto, nunca foi essa a minha intenção. Peço que quando tiverem um problema pensem que há sempre alguém pior que vocês, porque é assim que eu penso, eu estou "mal" mas há alguém ainda pior do que eu, e aí todos os pensamentos negativos vão embora, o sorriso volta e a vontade de viver torna-se ainda maior, porque não há ninguém que goste mais de viver do que eu, isso vos garanto.
   Não há palavras para agradecer... Minha Mãe e Meu Pai, vocês são o meu coração! À minha família por ser sempre espetacular! Aos meus amigos do coração, que estão aqui todos os dias e que sem eles não conseguia fazer nem ser metade das coisas que faço e que sou! A todos vocês por terem sempre uma palavra de carinho!
   Uma nova fase me espera... o Transplante de Medula!
   Não, ainda não há dador!