Para quem não sabe
e quer saber, para quem sabe e quer voltar a saber e até para quem não quer
saber...
Tudo estava bem,
tudo corria às mil maravilhas, era (e sou) feliz, estudava e divertia-me até
que... o mundo voltou a cair.
Após algumas semanas de constipação e de alguma febre no domingo dia 23 de Abril decidi ir à urgência de Santarém, por incrível que pareça e sei que é muito raro isto acontecer fui recebida por um médico espectacular que não desistiu de saber o que se passava. Temia que fosse febre da carraça, mas após revistarmos tudo vimos que não era. Fiz análises, enquanto esperava os resultados fazia tratamento para a febre, mas o meu sexto sentido dizia que algo não estava bem. Veio o resultado das análises. Tudo alterado. Algo não estava mesmo bem. Devido aos meus antecedentes o médico, para meu bem, decidiu contactar o IPO. No meu rosto só corriam lágrimas, estava à vista que tudo estava a voltar novamente por mais que a minha mãe dissesse que não. O tal médico, que ainda hoje estou para saber o nome, chamou-nos à parte, disse que o melhor era ir para o IPO, fazer exames para saber o que realmente se passava, mas que tinha que passar ali a noite e depois seguia para o IPO de ambulância. E tudo começou... Outra vez...
Depois de uma noite mal dormida, num quarto isolado, na companhia de
excelentes enfermeiros, segui a minha viagem até Lisboa na companhia da minha
mãe. Dia 24 de Abril posso afirmar que foi um dos piores dias da minha vida.
Após a entrada na urgência, fiz os respectivos exames e esperei o resultado.
Não foi o que eu queria ouvir. A minha "antiga" médica sentou-se ao
meu lado e confirmou o que mais temia "Tens leucemia", que palavras
tão duras de ouvir. Como costumo dizer, a primeira vez custa ouvir mas a
segunda custa muitas mais. Lágrimas corriam pelo rosto, pelo meu, pelo da minha
mãe, pelo do meu pai e pela minha médica. O desespero foi tão grande que
cheguei a pensar "Vou desta para melhor". Custou-me tanto ver os meus
pais assim, só Deus sabe o que este coraçãozinho aguenta. Depois de muitas
lágrimas derramadas, saímos por aquela porta com uma certeza, "ele"
não ia acabar comigo, nós íamos enfrentá-lo. E assim foi, de imediato comecei a
quimioterapia, o primeiro ciclo foi composto por 7 dias de quimioterapia, 24h
sob 24h com pequenos efeitos secundários, só o corpo todo manchado. Decidi
cortar logo o cabelo, sabia que ele ia cair e ia custar-me imenso vê-lo cair,
apesar de me custar cortá-lo mas foi o melhor.
A médica disse que assim que saísse da aplasia (quando os valores
começam a subir) que poderia ir uns dias a casa, mas algo não estava a correr
bem, os valores não subiam, algo de errado se passava. Fiz um exame à medula e
os resultados não foram os esperados, entrei ali com 90% das células doentes e
o primeiro ciclo de quimioterapia só acabou com 40%, ou seja, ainda tinha 50%
das células doentes, ainda era muito para poder ir a casa, tinha que começar um
novo ciclo de quimioterapia o mais rápido possível e como tal não podia ir
passar uns dias a casa, apenas me deram um mimo de ir a casa almoçar. Depois
dessa tarde comecei o pior ciclo de quimioterapia, tive bastantes efeitos
secundários como todos sabem. Tive 4 dias sem conseguir abrir os olhos, logo de
seguida tive uma infecção no intestino ao qual fui obrigada a deixar de comer e
beber durante uma semana e para acabar a dose fiz um coágulo numa veia. Foi
bastante agressivo, comecei a depender da ajuda da minha mãe, não conseguia
fazer as coisas sozinha, mas parece que foi assim que fez efeito, o cabelinho
começou a cair de vez e decidi rapá-lo.
Depois de acabar esses efeitos todos fiz novamente esse exame à medula e como as coisas já estavam a ganhar caminho ao fim de dois meses vim para casa, FINALMENTE.
Home sweet home! Dia 19 de Junho, nada
melhor que uma semana cheia de abraços e cheia de carinhos. Uma semana que
pareceu uma hora mas que foi aproveitado até ao último minuto. E com boas
notícias pelo meio ainda soube melhor. O resultado do exame à medula chegou, e
não podia ser um resultado melhor, entrei em remissão, ou seja, já não havia
vestígios da doença! Uma explosão de alegria que houve em mim, tudo estava no
caminho certo! (Obrigada a quem estava comigo quando recebi o telefonema, foi o
melhor abraço que podia receber.)
Depois dessa semana voltei à
realidade, mais um internamento, mas as coisas agora estavam mais calmas, iriam
ser poucos dias. Fazia a quimio vinha a casa e depois voltava para controlo da
aplasia. Esta quimio era mais leve, não tive qualquer tipo de efeito
secundário. Chama-se a consolidação, ou seja, é uma prevenção para que não
volte a haver vestígios da doença. É importante explicar que lá por ter entrado
em remissão não quer dizer que não tenha que fazer o transplante, o principal
objetivo era entrar em remissão pois para fazer o transplante de medula tenho
que ir com menos de 5% da doença, o que foi conseguido porque não há vestígios
de células cancerígenas.
Fiz três quimios de
consolidação, a primeira começou a 26 de Junho, a segunda (acho) a 17 de Julho,
e a terceira a 13 de agosto. Sim, com muito esforço consegui vir à festa da
Glória 😊
Como as minhas veias já estão
super cansadas e estragadas era obrigada a pôr um cateter externo que era
colocado no pescoço (veia jugular) cada vez que ficava internada (como muitos
viram ou como também se vê nas fotos) e como aqui a princesa é uma Maria
Madalena chorava cada vez que isso tinha que acontecer, tivemos que optar por
um cateter interno com anestesia geral (normalmente põe-se com anestesia local
mas como já pus um e sei o que custa pedi para ser geral) ao qual me obrigou a
passar uma noite na pediatria do IPO, felizmente correu tudo bem. Para quem não
sabe e fazendo um breve resumo, cateter é um tubo debaixo da pele que está
ligado à veia subclávia (meninas e meninos enfermeiros corrigem-me se estiver
errada). É através desse cateter que faço todos os tratamentos necessários.
Após a primeira sessão de
consolidação surgiu a ideia de fazer uma sessão fotográfica assim mesmo,
careca, sem cabelo, para dar a conhecer aqui que sou sem qualquer tipo de
complexos. Nunca é demais agradecer à minha querida Cláudia e ao meu querido
Duarte por conseguirem tornar esta sessão ainda mais especial do que tinha
imaginado.
É difícil, muito difícil,
ninguém tem a noção, mesmo quem já passou por isto tem uma maneira diferente da
minha de reagir, de certeza. Aquilo que vocês vêm é aquilo que sou quase
sempre, a menina alegre e feliz, como se não se passasse nada, a menina que se
sente bem, que vê isto como um obstáculo, que só pensa que um dia vai tudo
passar, a menina com o sorriso que vocês vêm na rua, mas também que, por vezes,
se farta, que chora e que tem vontade de desistir de tudo, aquela menina que
nunca fala do que está mal mas sempre do que está bem. Não me perguntem de onde
vem esta força porque por vezes também deixo de a ter, também tenho o direito
de fraquejar (por mais que vocês não queiram), também tenho o direito de chorar
e pensar que nada disto devia acontecer, que eu, principalmente eu, não mereço
isto.
Não peço que chorem a ler
isto, nunca foi essa a minha intenção. Peço que quando tiverem um problema
pensem que há sempre alguém pior que vocês, porque é assim que eu penso, eu
estou "mal" mas há alguém ainda pior do que eu, e aí todos os
pensamentos negativos vão embora, o sorriso volta e a vontade de viver torna-se
ainda maior, porque não há ninguém que goste mais de viver do que eu, isso vos
garanto.
Não há palavras para
agradecer... Minha Mãe e Meu Pai, vocês são o meu coração! À minha família por
ser sempre espetacular! Aos meus amigos do coração, que estão aqui todos os
dias e que sem eles não conseguia fazer nem ser metade das coisas que faço e
que sou! A todos vocês por terem sempre uma palavra de carinho!
Uma nova fase me espera... o
Transplante de Medula!
Não, ainda não há dador!







